UNEMAT FAZ PESQUISA

Como medicamentos e produtos que a gente consome podem contaminar as águas do Pantanal?

Ao todo, 14 tipos de contaminantes emergentes foram detectados nos rios do Pantanal. Pesquisadores avaliam possível utilização de tecnologias naturais de tratamento

Por Danielle Tavares
15/04/2026

(Foto: Foto original do Acervo Celbe, com edições de IA)

 

Impulsionados pelo alto consumo e descarte inadequado, medicamentos, hormônios sintéticos, produtos de cuidados pessoais, assim como pesticidas, fármacos de uso veterinário e substâncias industriais representam riscos crescentes para os ecossistemas aquáticos do Pantanal.

Para identificar a ocorrência desses compostos, ao longo dos rios que formam esse gigantesco bioma, cientistas de dois programas de pós-graduação da Unemat, Ciências Ambientais em Cáceres e Recursos Hídricos em Cuiabá, se uniram a parceiros da Universidade de Córdoba (Colômbia).

Os chamados Contaminantes Emergentes (CEs) não são completamente removidos por tratamentos convencionais de esgoto e, por isso, têm sido detectados em rios, lagos, solos e até em organismos aquáticos. Mesmo em concentrações baixas, podem causar danos à fauna aquática e trazem riscos à saúde humana, agindo, muitas vezes, como desreguladores endócrinos.

“Embora frequentemente encontrados em baixas concentrações, muitos desses compostos apresentam comportamento persistente no ambiente e podem atuar como desreguladores endócrinos, genotóxicos e causar alterações no funcionamento do sistema imunológico, afetando negativamente peixes, crustáceos, anfíbios e humanos”, explicou o coordenador do estudo, professor Wilkinson Lopes Lázaro, doutor em Ecologia e pesquisador do Centro de Estudos em Limnologia, Biodiversidade e Etnobiologia do Pantanal, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Celbe/Unemat).

O pesquisador Eduardo Miguel (esquerda) e o orientador Wilkinson Lopes Lázaro (direita) mapearam a presença de contaminantes emergentes em diferentes pontos do Pantanal. Foto: Acervo pessoal.

Apesar das ameaças à saúde humana, de animais, ao meio ambiente e ao grande potencial de acúmulo e dispersão, estudos que medem e mapeiam a presença desses contaminantes nas águas do Pantanal ainda são limitados.

“A legislação sobre contaminantes emergentes permanece escassa e varia de país por país, refletindo o número limitado de estudos específicos por composto”, avalia Wilkinson.

No Brasil, pesquisa recente apontou que a água que chega nas nossas casas contém 77 contaminantes químicos, sendo 22 já mapeados por agências de saúde e 54 classificados como contaminantes emergentes.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA, por exemplo, já identificou vários ingredientes de higiene pessoal com potencial de desregulação endócrina em sua Lista de Possíveis Contaminantes da Água Potável (CCL).

COMO AVALIAR A PRESENÇA DE CONTAMINANTES NOS RIOS DO PANTANAL?

Uma pesquisa tão ampla quanto a vasta área a ser estudada. Foram analisadas águas superficiais em pontos de coletas instalados em seis locais, ao longo dos rios Paraguai e Cuiabá/São Lourenço, em abril, estação chuvosa de 2024.

Equipe selecionou seis pontos para coleta e análise. Foto: acervo Celbe.

A equipe selecionou regiões de transição na parte ocidental de Mato Grosso, contendo fragmentos de Floresta Amazônica, Cerrado e Pantanal. Esses locais ficam distribuídos nos municípios de Cáceres, Cuiabá, Barão do Melgaço e Poconé. O risco ecológico foi medido segundo parâmetros adotados internacionalmente para cada composto.

Mapa mostra os pontos onde foram colhidas as amostras, instalados nos rios Paraguai (1, 2 e 3) e Cuiabá/São Lourenço (4, 5 e 6). Imagem: Eduardo Miguel.

Os resultados da pesquisa servem de alerta. Ao todo, 14 compostos foram detectados. “A ocorrência da presença combinada de produtos farmacêuticos/ higiene pessoal e hormônios perto das margens urbanas e de pesticidas em toda a bacia ressalta a pressão mista de efluentes urbanos e agricultura”, avaliou Eduardo Miguel, estudante de Pós-Graduação em Ciências Ambientais.

Veja no infográfico abaixo como cada contaminante foi encontrado e o que provoca na saúde de humanos, animais e no ambiente.

Infográfico gerado por NotebookLM, a partir da sistematização dos principais resultados obtidos na pesquisa

Os produtos farmacêuticos e microplásticos (BPA) foram proeminentes perto de áreas urbanas, enquanto herbicidas foram disseminados por todas as áreas, indicando influência agrícola em escala de bacia. A cafeína confirmou-se como um traçador de águas residuais domésticas.

Estes primeiros resultados fornecem um panorama inicial para o Pantanal e apoiam ações de monitoramento e mitigação direcionadas. “Recomendamos a expansão para séries temporais multi-sazonais e a integração de dados de uso do solo e saneamento para refinar as ações de mitigação e salvaguardar a integridade deste importante ecossistema”, considera o pesquisador Eduardo.

TECNOLOGIAS NATURAIS DE TRATAMENTO

A equipe vem avaliando o potencial de remoção desses compostos por sistemas naturais de tratamento, como Wetlands Construídos (em livre tradução, zonas úmidas construídas).

Esses sistemas simulam áreas úmidas naturais. Eles utilizam materiais filtrantes como microrganismos e macrófitas aquáticas para remover contaminantes por processos combinados de adsorção, oxidação, filtração, fotodegradação, biodegradação e fitoextração. Foto: Acervo Lipan.

Estudos anteriores mostram que sistemas construídos podem remover de forma eficiente compostos como cafeína, diclofenaco, ibuprofeno e bisfenol A, além de nutrientes e surfactantes.

“Frente à necessidade de soluções de baixo custo, baixa demanda energética e fácil operação, os wetlands construídos representam alternativa promissora para o saneamento descentralizado no Brasil”, explicou Eduardo Miguel.

A primeira estação experimental foi instalada em uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), no município de Cáceres (MT), e os resultados foram positivos. A equipe, agora, pretende ampliar para municípios de pequeno e médio porte.

SAIBA MAIS

A pesquisa “Avaliação de contaminantes emergentes no pantanal mato-grossense: estudo de campo” vem sendo desenvolvida pelo estudante de Pós-Graduação em Ciências Ambientais, Eduardo Miguel, sob orientação de Wilkinson Lopes Lázaro, e parceria de José Marrugo Negrete (Universidad de Córdoba), Francisco Lledo dos Santos (ProfÁgua – Unemat) e Ernandes Sobreira Oliveira Júnior (ProfÁgua e Ppgca – Unemat).


Assessoria de Comunicação - Unemat

Contato:
imprensa@unemat.br

Compartilhe!